Zine Cultural - 11 Anos

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SEST SENAT
CONECTA

09 Set 2014

Sananab

Publicado em Cultura as 14h31





Por Joice Rodrigues de Lima*
É no encontro com o público que o palhaço se revela, naquele momento em que estar junto proporciona o crescimento e agrega experiências aos envolvidos. Segundo Luís Otávio Burnier (2001), “o clown é a exposição do ridículo e das fraquezas de cada um. (...). Não se trata de um personagem, ou seja, uma entidade externa a nós, mas da ampliação e dilatação dos aspectos ingênuos, puros e humanos, portanto ‘estúpidos’, do nosso próprio ser”. E, por isso, tem a capacidade de gerar tanta proximidade, permitindo-nos ser afetados pelo limiar do ridículo a que ele se expõe.
Nesse caminho de trabalho, Neto Donegá nos concede generosamente o palhaço Bisgoio, no espetáculo “Sananab”, nos últimos momentos do 8º Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora. Com uma estrutura pré-definida, mas rica em improviso, constrói situações através da manipulação de alguns objetos, lidando sensivelmente com a resposta do espectador. 
O palhaço aqui aceita e enfrenta o risco do encontro. Ele desenvolve seu discurso a partir (e em comunhão) das reações ingênuas e humanas - próprias do palhaço - que exigem coragem e empenho para serem atravessadas. 
O público prazerosamente embarca em sua viagem, construindo uma relação sensível com o acontecimento e com seu estado despretensioso, inteiro e vivo, em total escuta, revelando-se com calma e consistência, à medida que nos presenteia com a experiência de um espetáculo delicado, ingênuo e maduro no que se refere ao mergulho nesta peculiar máscara. 
Fotos por Rodrigo Souza
Não poderia ter sido de melhor maneira para encerrar a participação dos espetáculos inscritos no festival. Foi pouco mais de uma semana de espaços de confluência, comprometidos em proporcionar a reflexão. Através do embate de opiniões, foi possível verticalizarmos nosso pensamento, aprofundando nossos olhares sobre os caminhos do fazer teatral. Dias de mergulho em percepções variadas sobre o teatro realizado hoje por veteranos e novos grupos, que, acima de tudo, assumem o risco do fazer. Reverberações que afetam e modificam nossos próximos passos. Gratidão!
 
O espetáculo aconteceu no dia 7 de setembro | 19h | Pró-Música.
*Joice Rodrigues de Lima é mestre em Artes Cênicas pela Unicamp, atriz, professora e produtora teatral.


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09 Set 2014

Dom Chicote

Publicado em Cultura as 14h15





Por Anna Esteves (RJ)*
A Cia A DitaCuja propõe “a criação de um outro tempo, um outro lugar” ao encontrar-se com o movimento Steampunk e escolhe a rua como tomada de posição política para “colocar seu pensamento e suas escolhas para o mundo”. Da dualidade entre público e privado e antigo e moderno nasce a proposta desta montagem. 
Assim seus integrantes a definem no programa da peça e levantam a espada de Dom Chicote Mula Manca e seu fiel escudeiro Zé Chupança, dramaturgia de Oscar Von Pfhul, num domingo ensolarado na UFJF, justo no dia 7 de setembro.
O trabalho de pesquisa envolveu todo um coletivo de profissionais, com destaque para preparação musical de Marcio Bá, preparação circense de Ronando de Jesus, preparação de máscara e técnicas de rua de André Cruz, que além de atuar na peça, participa da confecção do figurino e assina a direção. 
A Cia de Ribeirão Preto conta a história do recém-nomeado cavaleiro Dom Chicote Mula Manca, que por ordem do rei parte em busca das ovelhas roubadas de seu amigo Zé Chupança, em uma jornada repleta de perigos imaginários e conspirações reais.
A execução do trabalho fica comprometida por problemas de conteúdo e forma. Há um erro grave na escolha da companhia ao representar as figuras do rei e seu assessor com o clichê do homossexual. Se a peça propõe a discussão política dos impactos das relações (desiguais) de poder na avaliação crítica de cada espectador, cidadão comum, por que concentrar nas figuras mais abomináveis da peça a piada certa, preconceituosa e pequena? 
O escopo de um teatro que propõe a crítica social como função da sua existência opera numa outra via: a refuncionalização dos clichês. O efeito formal é muito interessante, pois, ao mostrar objetivamente a diferença entre rir DE alguém e rir COM alguém, faz o espectador refletir criticamente sobre a cena e a vida. 
Fotos por David Azevedo
Não é o que acontece em Dom Chicote Mula Manca e seu fiel escudeiro Zé Chupança. Há todo um discurso ideológico que não se concretiza nas escolhas cênicas e impede a potencialidade do conteúdo precioso que a companhia tem nas mãos. 
 
O espetáculo foi apresentado no dia 7 de setembro | 11h | UFJF.
*Anna Esteves (RJ) é doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO e em Artes, Línguas e Espetáculo por Nanterre (Paris X).
 


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08 Set 2014

Quem roubou meu sapatinho?

Publicado em Cultura as 13h15





Por Miguel Anunciação (BH)*
Enorme expectativa cercava a sessão de “Quem roubou meu sapatinho?”, no Pró-Música. Como se a montagem do Grupo Teatral InSônia, de Ribeirão Preto (SP), viesse ser uma das melhores escalações da 8ª edição do Festival Nacional de Teatro. Pena, esta expectativa não se cumpre e o espetáculo um tanto desaponta - embora seus jovens integrantes não sejam responsáveis pelo que se diz de grandioso do seu mais recente trabalho.
Não é um espetáculo ruim. Absolutamente. Ao contrário, é muito bem cuidado, digno no que pretende e oferece. Dirigida por João Paulo Fernandes, sua versão para a tão reencenada e conhecida fábula dos Irmãos Grimm, a “Gata Borralheira” ou “Cinderela”, põe em cena sete atores (Gabriela Vansan, Vilsinho Juri, Renan Eichel, Juliano Borges, Renata Carlomagno, Lê Reis e Douglas Pires) e uma impressionante solução cenográfica, que acolhe os figurinos e as trocas do elenco.
Além de inserir tradicionais brincadeiras de rua da região em que vivem no primeiro espetáculo que produz para crianças, o pessoal do InSônia também dispõe personagens da obra secular em situações reconhecíveis no mundo de hoje. Sem alterar o enredo básico - uma menina rudemente tratada em casa pelas filhas da sua madrasta, salva pelo amor do jovem com quem dançou no baile real –, faz o príncipe se equilibrar sobre skate e a princesa, em patins. E a fada madrinha tem um quê de diva gay.
Formado em 2011, por ex-alunos do curso profissionalizante de teatro do Senac, equivalente ao 2º grau, o InSônia já montou mais três espetáculos: “Valsa nº 6”, de Nelson Rodrigues; uma coletânea de textos de Bertolt Brecht; e “Hamlet”, talvez a obra mais reverenciada de William Shakespeare. Montar um espetáculo para crianças não seria uma estratégia de garantir recursos para uma outra investida nos clássicos, em outra leitura para adultos, como tantos outros grupos se organizam.
Fotos por Rodrigo Souza
Segundo Renata Carlomagno, atriz/dramaturga de “Quem roubou meu sapatinho?”, o grupo reservaria cuidado igual a tudo o que produz. Desta vez, tomou as artes populares e as brincadeiras do interior paulista como matrizes. E o público responde calorosamente à sua encenação. É inegável que ela possui graça, alguns encantos. Mesmo que também recorra a uma estética bastante difundida pela TV e o elenco careça de mais técnicas de atuação.
 
O espetáculo foi apresentado no dia 6 de setembro | 19h | Pró-Música.
*Miguel Anunciação (BH) é jornalista e crítico de espetáculos.


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08 Set 2014

Barrela

Publicado em Cultura as 13h01





Por Joice Rodrigues de Lima*
Chocado com a brutalidade de um caso real de um garoto que foi preso pelo envolvimento em uma briga de bar, na cidade de Santos, litoral paulista, e como consequência foi currado na cadeia, Plínio Marcos iniciou sua carreira de dramaturgo criando “Barrela” - espetáculo que a Cia. Balaco do Bacco, de Ribeirão Preto (SP), apresentou na noite de ontem, no penúltimo dia de atividades do 8º Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora.
Censurada pela ditadura militar sob a acusação de tratar-se de “pornografia”, a peça, na verdade, narra a tensão presente nas relações de poder conflituosas entre pessoas inseridas na peculiar situação carcerária. O texto, direto e forte, mesmo após mais de 50 anos de sua escrita, retrata a fragilidade, injustiça e violência impressas no sistema prisional do país, no que diz respeito a todas as suas variáveis instâncias, tanto na relação entre estado e indivíduo, como entre indivíduos encarcerados que criam suas próprias frestas de sobrevivência. Segundo o próprio autor: “O teatro foi a forma que encontrei para dar um testemunho a respeito do tempo mau que vivemos. Falo de gente que conheci e conheço, gente que está amesquinhada por gente; gente que vai se perdendo.”
Sem tentativas de recriações, a companhia traz uma encenação justa à proposta do texto. A direção propõe cenário e sonoplastia que fazem referência ao interior de uma cela, sem a necessidade de ilustrações, com o mínimo de elementos cenográficos presentes em cena. O espetáculo pauta-se na construção naturalista dos atores que tomam por foco traduzir o fio de tensão presente nos personagens propostos.
Fotos por rodrigo Souza
Com escolhas pontuais na adaptação e cortes no texto, o grupo trata a proposta de trazer o texto à cena com honestidade. A apreensão crescente entre os personagens e o espaço construído transfere para que o espectador faça a opção em concretizar as possibilidades de leituras e associações com a sociedade atual.
 
O espetáculo foi apresentado no dia 6 de setembro | 21h | CCBM.
*Joice Rodrigues de Lima é mestre em Artes Cênicas pela Unicamp, atriz, professora e produtora teatral.


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08 Set 2014

Gambiarra

Publicado em Cultura as 12h52





Por Pádua Teixeira (BH)*

“Gambiarra” é o título do espetáculo que a companhia Os Profiçççionais trouxe para o 8º Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora. Geralmente, nas apresentações de palhaços, a classificação do espetáculo é livre. Mas, neste caso, é recomendado a partir de 16 anos. O palhaço é extravagante, absurdo, mentiroso, surpreendente, provocador. Representa a liberdade e a anarquia, o mundo infantil. Embora vinculado aos circos, o palhaço pode atuar também em espetáculos abertos, em teatro, em programas de televisão. A meu ver, é o caso de “Gambiarra”, que usou uma linguagem televisiva, muito comum nas comédias atuais. Mas a proposta era trazer de volta o antigo circo-teatro. Em 60 minutos de apresentação, assistimos drama, comédia, comédia, drama. A companhia classificou o espetáculo de tragicomédia. O palhaço é lírico, inocente, ingênuo, angelical e frágil. O palhaço não interpreta, ele simplesmente é. Ele não é personagem, ele é o próprio ator expondo seu ridículo, mostrando sua ingenuidade.

Para tanto, cada ator desenvolve esse estado pessoal, de palhaço, com características particulares e individuais. Na apresentação da peça, assistimos aos dois casos. Os atores representam e, em alguns momentos, simplesmente são palhaços. O grupo Os Profiçççionais conseguiu atingir seus objetivos, pois a plateia deu boas risadas e a presença de uma única criança avalizou o espetáculo com ótimas gargalhadas.

Fotos por David Azevedo

O espetáculo foi apresentado no dia 6 de setembro | 15h | Diversão & Arte.

*Pádua Teixeira (BH) é diretor e produtor teatral.


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Coluna do Dia - 16/09/2014

16 de setembro de 2014
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