Zine Cultural - 11 Anos

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02 Out 2013

Lê pra mim

Publicado em Cultura as 10h00





Você sabia que, espontaneamente, a maioria dos adultos no Brasil lê somente um livro por ano? E o mais curioso: segundo uma pesquisa, 78% dos leitores nunca ganharam um livro na infância.
Pensando nisso, o projeto “Lê Pra Mim?” foi criado em janeiro de 2010, com o objetivo de estimular a leitura de livros infantis brasileiros por crianças, gerando assim futuros cidadãos mais conscientes e interessados por essa atividade sociocultural.
Patrocinado pelos Correios, o projeto já contou com 16 edições, no Rio, Brasília, São Paulo, Salvador e Belém. 
Idealizado pela atriz Sônia de Paula, ela contou ao Zine que a ideia surgiu em uma tarde de domingo, quando, ao ver sua filha já adolescente saindo de casa, se lembrou da cena em que a menina pedia “mamãe, lê pra mim?”. “Esse foi o primeiro livro que eu li (Meu pé de laranja lima). Durante todos esses anos, aprendi a importância de incentivar nossas crianças a nunca deixarem de sonhar, pois os livros nos mostram isto.”
Ao todo, mais de 100 artistas e personalidades já participaram das leituras, entre elas Ewa Vilma, Fátima Bernardes, Marília Gabriela, Maitê Proença, Reynaldo Gianecchini, Cláudia Raia e Regina Duarte.
O organizador do projeto, Marcelo Aouila, revela que as crianças ficam sempre encantadas por ter alguém lendo para elas. “Principalmente as personalidades, que são referência, pessoas que elas admiram. Claro que todas querem que este momento nunca acabe. É realizar um dos sonhos delas.”
Marcelo conta ainda que, nas escolas participantes, as crianças chegam com os livros doados no projeto e leem para as outras menores. “Estamos assim multiplicando a ação!”
Em Juiz de Fora, o evento acontece do dia 03 a 07 de outubro, com a participação de diversas personalidades. Confira a programação aqui.
 
Alexandre Silveira (Seu Zine) e Sr. Luiz André Gama - Autor do livro "Lu - Um estranho jeito de aprender"
 
O Seu Zine vai marcar presença, apresentando o livro: “Lu - Um estranho jeito de aprender”, do autor André Luiz Gama.
E você, o que vai fazer para contribuir com o mundo encantado da leitura?

Publicado por: Talita Scoralick @talitascoralick


 
 



16 Set 2013

O rap em JF

Publicado em Cultura as 16h00





Pra galera das antigas, rap é sinônimo de Racionais Mc's e Sabotage. Hoje em dia, Emicida, Criolo, Projota e outros rappers brazucas, metem o pé na porta da comodidade e retratam uma realidade que muitos não enxergam.  É com esse pensamento que a galera do Encontro de Mc's de Juiz de Fora se reúnem para um duelo em que todas as partes ganham, principalmente os espectadores.

Brenda Andrade, uma das organizadoras, conta que o Encontro de Mc's começou em fevereiro de 2011 através de pequenos grupos de pessoas que se identificavam através do Hip-Hop, e que esse encontro tem uma grande importância não só para o cenário musical da cidade, pois dissemina não só o Rap, mas todos os quatro elementos da cultura Hip-Hop (Graffitti, Breaking, DJ e Mc).

Mc Oldi, integrante do Grupo Contágio, também faz parte do encontro de MC's e está lançando seu primeiro CD Solo. Mostrando toda a força do rap no cenário de Juiz de Fora. O CD ainda não tem previsão de lançamento mas você já pode curtir algumas músicas no SoundCloud do Mc. 

Conversamos com Oldi pra saber as expectativas do novo CD e sobre o rap em JF. Confira a entrevista e se ligue um pouco mais no submundo cultural do rap. 

Qual sua expectativa para o lançamento do CD? 

Oldi:  A expectativa pro CD está muito boa, o processo foi bastante demorado, desde 2012 fiquei na função de encontrar instrumentais que pudessem passar um pouco de mim para dentro das melodias. Ter encontrado uma textura e um formato próximo do que eu imaginei é muito satisfatório. Acho que o resultado vai ser uma mixagem de faixas que contam histórias e relatos, fictícios e reais.

Como é seu processo de criação das músicas?

Oldi: Pra mim o processo de criação é muito natural, segue como um fluxo. Escutar o instrumental antes me passa uma inspiração forte, tento tirar a letra em cima do que a base está me sinalizando. Também procuro sempre tentar abordar uma visão diferente sobre temas corriqueiros, tentando mudar pontos de vistas e evitar frases esperadas, o inédito é sempre um alvo.

O que mais te inspira nesse processo?

Oldi: O que mais inspira com certeza é a música, e a vontade de entender e fazer pra ela e por ela. Outra alegria muito grande em poder trabalhar com Hip Hop é o sentido que o movimento segue, com seus preceitos e objetivos. É uma cultura linda que me inspira a espalhar a mensagem e a essência. Acho que as pessoas conhecem muito pouco o Hip Hop, ao invés disso conhecem os elementos da cultura de forma isolada, o que prejudica. Só vivendo e sentindo pra poder entender o que se passa dentro da nossa cultura.

O que acha do rap nacional?

OldiAcho que o RAP nacional evoluiu em grande parte. Hoje já temos uma visibilidade legal, com Mc's de destaque dentro do cenário musical brasileiro e um mercado girando de forma comercial e também independente. A parte mais legal do RAP nacional pra mim é viver esse independente, e tentar sobreviver dentro dele, é difícil, porém satisfatório demais. Mas fico feliz com os artistas e grupos que despontam em vários locais, torço por eles. A parte complicada desse crescimento grande nos últimos tempos é que muitos não entendem o que é a cultura Hip Hop como um todo. Essa galera às vezes desvirtua as coisas. Pra mim entender a filosofia e os grandes arquitetos dela é o principal, espero que com o tempo esse conhecimento possa ser democratizado e passado para todos os amantes da cultura urbana.

 

Qual a maior diferença que você percebe em relação ao últimos anos no cenário nacional de Rap?

Oldi: Pra mim a maior mudança é a seguinte: finalmente as pessoas estão começando a enxergar o RAP como música e os Mc's como músicos. Isso pra mim é o mínimo de respeito e consideração que temos que receber.

 

Fale um pouco sobre o encontro de MC’s? O que tá rolando de bom aqui em JF?

Oldi: Encontro de Mc's é um dos movimentos independentes da cultura Hip Hop juizforana. Local onde os elementos são praticados, discutidos e aplicados. É o momento de protagonizar todos os agentes da cultura de rua da cidade. É o nosso grande cartão de visita pra toda população daqui e do Brasil (através da cobertura de vídeo e foto que é feita através da nossa mídia). Tentamos ser o máximo plural possível, um dos objetivos é que o evento seja sempre orgânico e sincero, quem faz é porque ama. Pra galera conhecer melhor é só indo mesmo!

Fica o convite e a expectativa do lançamento do CD. A galera que quiser saber mais é só visitar a página do Encontro de MC's

Publicado por: Vinícius Barreto


 
 



13 Set 2013

Uma estação a construir

Publicado em Cultura as 10h00





A temática é das mais instigantes e provocadoras: o envio de pessoas “indesejáveis” no convívio social para o Hospício de Barbacena, um fato histórico, que nos remete de imediato à pintura de Bosch e sua Nau dos Insensatos. A inspiração no conto de Guimarães Rosa, Soroco, sua mãe e sua filha, também estimula nosso imaginário.  
Tudo conspira, portanto, para nos colocar abertos e receptivos ao espetáculo “Estarção”, da Cia Independentes de São João del-Rei (MG).  Atores e direção da Cia. Independentes desafiam-se, assumindo todos os aspectos da cena, inclusive e particularmente a dramaturgia, optando por escrever seu próprio texto a partir de pesquisas em Barbacena e num amplo leque de materiais. 
A ideia básica da proposta dramatúrgica é o tempo da espera, e o encontro que se configura enquanto se espera.  Inconsciente de sua situação, Aurora aguarda ansiosa e mesmo esperançosa o trem que vai levá-la para o manicômio, fantasiando sobre o que vai encontrar ao final da linha.  É na estação onde aguarda que Mauro vai encontrá-la, passando a visitá-la diariamente até o dia em que chega o trem.  Durante este tempo, sentimentos se formam, laços se estabelecem, confissões e trocas são feitas.
Se os materiais primeiros são estimulantes, a concretização do espetáculo ainda se coloca num plano bastante frágil, carente da densidade que o tema proposto exige. A começar pela própria dramaturgia cujo texto que lhe dá base não chega a ir mais fundo na temática que se discute. Mauro e Aurora conversam, criam laços e em alguns momentos deixam entrever o universo imaginário em que particularmente Aurora vive mergulhada, mas tudo isto é bastante sutil, excessivamente, assim como são sutis as referências ao hospício para onde vai ser levada. Pela carência de informações mais precisas ao público e a partir da conversa dos dois personagens, este trem poderia a estar levando para muitos lugares, não necessariamente um hospício.  Se na escrita do texto o grupo optou por não cair na ilustração óbvia da narrativa, acabou caindo no extremo oposto de um excesso de sutileza que não permite ao público aproximar-se do que realmente se trata.  
Assim,  a opção pela projeção de um texto explicativo ao final, o que poderia ser um reforço e uma aprofundamento do que vinha se mostrando até então, vai se colocar como o instante da revelação, imprescindível para o entendimento da peça, ou pelo menos para nos colocar no diapasão que ela pediria dado o impulso criativo gerador do trabalho. 
Feitas estas observações, também destacamos uma série de outros elementos que a cena costura, mas que não necessariamente compõem harmonicamente com o conjunto, e por isso mesmo não nos ajudam a entrar no espetáculo. Entre eles, o figurino de Aurora, cujo tecido de um azul tão forte e brilhante faz com que ele se destaque com tal força na cena, de certo modo nos desviando do que merece ser observado.  
Os cavaletes dispostos no palco, uma boa ideia de material cênico sem dúvida, às vezes são bem explorados, mas só se vai até um certo ponto nesta exploração, e ir até o extremo disso teria sido interessante. Em outros momentos temos mesmo a sensação de que eles se encontram displicentemente largados em cena, sem considerar que sua disposição em cena, seja ela qual for,  também forma imagens em permanência para nós. 
A opção pela música ao vivo, que é normalmente um enorme ganho para a cena teatral, no caso das escolhas de “Estarção” acaba nos afastando dela, constituindo-se como um mundo à parte, um instante musical quase como um intervalo da cena e não um cantar integrado que a constitua e provoque.   A opção por canções já conhecidas do público são um elemento a mais por nos afastar do espetáculo: trata-se de um momento musical delicado, bem executado, mas fora do que estamos assistindo, trabalhando contra e não a favor da cena.  Exceção nisto, naturalmente, os diversos sons, ruídos e efeitos sonoros que se integram e enriquecem a cena ao longo do espetáculo.  
Mas particularmente a escolha da canção de Chico Buarque, “O que será que será”, quase um ícone da música brasileira, de algum modo escolhida como o mote fundamental da relação entre Aurora e Mauro, nos transporta mais uma vez para fora da cena, e não ajuda à trama. Não basta gostar-se de uma canção pois o seu uso, deve implicar no reconhecimento do lugar que ela ocupa na memória nacional, e esta em particular traz consigo todo um referencial histórico que o grupo não pode ignorar. 
Assim uma boa ideia dramatúrgica, - onde se aproveita mais uma vez, e muito bem, o conto de Guimarães Rosa -, deixa de alcançar toda sua potencialidade pela escolha da canção.  Claro que o desafio teria sido criar uma canção, mas talvez mesmo tudo se resolvesse, e com mais efetividade, no simples cantarolar de uma linha melódica, por parte de Aurora, que talvez repetido marcasse a personagem como um registro próprio, e de que Mauro se apropriasse ao final, conquistando, a partir deste encontro a sua capacidade de cantar.   
Finalmente, “Estarção” é um espetáculo que lida com relações, tentativas de reconhecimento de si e do outro, e que por isso mesmo pediria, antes de mais nada, uma dupla de personagens precisas, de modo que sua evolução ao longo do  encontro vivido, nos deixasse entrever os efeitos transformadores sobre cada um deles em resultado deste convívio, como uma experiência.  E aí encontra-se o principal problema do espetáculo: o diapasão por onde transitam os personagens, que se revela no seu modo de falar e mesmo no modo como gesticulam em cena.  
A proposta singela do espetáculo, na forma como é concebido, se esvai no momento em que estes personagens se colocam frágeis demais, um tanto bobinhos mesmo, numa expressão e gestualidade bastante artificial. Esta opção faz também com que os instantes, onde por acaso se revelaria a “loucura” ou o desequilíbrio de Aurora, façam parte desta mesma fragilidade, não chegando a dialogar conosco.  Do mesmo modo o mancar de Mauro, que, impreciso, às vezes se mantendo, em outras desaparecendo, e chegando mesmo a passar de uma perna para a outra, mais suja a cena do que cria uma empatia com o personagem. 
“Estarção” tem tudo para se transformar num bom espetáculo, mas muitos problemas a serem resolvidos, entre eles e, como questão fundamental, a concepção de seus personagens que dão o tom a todo o trabalho, e que por isso mesmo não colaboram na construção do que se imagina estar sendo apresentado. 
 

Fotos: Paula Duarte

Publicado por: Eliane Lisbôa

Crítica convidada do 7º Festival Nacional de Teatro


 
 



12 Set 2013

Teatro e música em narrativa poética

Publicado em Cultura as 14h57





“Coisas de meninos” é um espetáculo de muitas camadas, todas elas se entrecruzando, apoiadas numa narrativa essencialmente cênica. Antes de mais nada, um texto, uma sequência de acontecimentos que nos vão sendo contados, enquanto se desenha uma cidade, uma pequena cidade, com seus habitantes e seus meninos. 
Como pano de fundo desta narrativa a, ou as relações homoafetivas que se encontram escondidas, negadas, mutiladas pela cultura local, a pequena cidade onde tudo é visto apenas de um único lado, por um único prisma E onde o mascaramento, a mentira fazem parte de seu dia a dia, a ponto de o artesanato “local” ser trazido da cidade vizinha.  Os meninos crescem neste mundo e o que eles experimentam de sentimentos diferentes disso os coloca em desequilíbrio.  
O espetáculo apresentado pela Cia. dos Meninos, de São Paulo, transita de alguma maneira no mesmo diapasão, portanto, de Luis Antonio/Gabriela,  (Cia. Munguzá, SP) do ponto de vista temático, sem chegar ao nível de profundidade daquele.  Aqui tudo é muito velado, quase não dito, como um sussurro. Se isso pode constituir um tom poético também não deixa de camuflar o que se quer discutir, e esta própria postura acaba impedindo o reconhecimento e a discussão ela mesma. Neste caso, apresentar a questão de maneira tão velada é quase compactuar com os que nos querem impedir de trazer à luz do dia nosso modo de ser e sentir.  
Mas sobre este pano de fundo, ou em camada ainda mais profunda na cena, “Coisas de meninos” transita por outros temas e espaços e cria em nós um espaço do imaginário e do poético que superam ou se sobrepõem a esta fragilidade. A dupla de meninos que assumem a atração que sentem um pelo outro é uma, dentro do conjunto de todas as imagens que o espetáculo oferece, de uma pequena cidade, do poder opressivo da Igreja, do medo de mergulhar fundo na própria vida. Mais do que simplesmente discutir as relações  homoafetivas (se é que a questão pode ser vista como simples), Coisas de Meninos discute a vida, ou poetiza a vida, de um lugarejo ou do contido em nós, do sufocado, do medo de existir que leva ao medo de matar, do medo de viver que leva ao desejo de morrer.    
Particularmente, entendemos que a força do espetáculo encontra-se sobretudo em sua poética formal,  nesta narrativa que se faz ação e se refaz narrativa com pequenos gestos, uns poucos objetos, grandes manequins e minúsculas figuras, tudo manipulado, conduzido pelas mãos precisas e sensíveis do conjunto de atores/músicos.
A narrativa vai sendo conduzida numa forma espiralada, com o pequeno mundinho da cidade se revelando aos poucos, por aproximações e recuos, até que tudo fique claro e a cidade então se desfaça como se ela fosse apenas construída em nossa imaginação e em nossa imaginação nos sufocando. Libertar-se é consequentemente destruir, explodir, inundar a cidade.  Deixar que o rio que chamava para o mergulho finalmente a cubra totalmente, restando as águas livres por onde se possa nadar.
Há no espetáculo, na maneira como lida com este texto já por si poético, uma sabedoria e leveza na sua construção, com os jovens atores transitando com delicadeza por todas as suas passagens, feitas de idas e vindas, de momentos presentes e recordações.  Desde a manipulação dos manequins até os momentos musicais, passando pelo jogo dos atores no centro da arena, narrando e representando, em tudo o espetáculo nos cativa e coloca num estado de emoção e sensibilidade. O jogo preciso dos atores e da luz fortalecem ainda mais esta interação, costurando com sabedoria a cena e suas inúmeras passagens. 
Trabalhando permanentemente com metáforas, o texto obriga os atores a trabalharem com a narrativa na construção de um lugar imaginário, onde temos todos um buraco no peito, onde sufocamos por falta do ar que os outros  nos roubam, onde a igreja ocupa 80% do espaço habitável.  Tantas e outras metáforas como essas que nos levam para um tempo e lugar mítico, de imagens próximas do realismo fantástico, mas que nos é apresentado de modo tão leve, sutil mesmo, com a disposição desses manequins, brancos, lisos, sem roupas, sem rosto, e os atores que lidam com eles e entre eles permanentemente, passando com a mesma leveza da cena para fora dela e para as intervenções musicais. 
Em torno da arena delimitada pelos atores e objetos, os instrumentos musicais, de que os atores vão se servir a cada tanto, cercam-na em semicírculo, dando-nos a ideia exata de uma banda musical pronta para sua apresentação, o que se realiza ao final, concretizando-se o sonho dos meninos de formar uma banda, que, de fato, parece ser ao mesmo tempo o sonho destes atores de fazer um espetáculo que mescle de tal modo as duas artes, teatro e música, que construa um outro ser, uma arte diferenciada, onde não haja sobreposição de nenhuma delas, onde a construção teatral esteja evidenciada em permanência, e a sua musicalidade não seja um  elemento à parte, mas componha com ela, formando de fato uma unidade na sua forma espetacular.  A risada final dos atores de algum modo nos diz isto, do prazer de ali estar, desta forma, também nisto assumido sua singularidade, enquanto nos fala também das tantas possiblidades de que tudo não tenha passado de uma bela e triste história que estes atores/músicos se dispuseram a nos contar. 
Infelizmente, no entanto, em meio a tantos atributos positivos, a escolha por parte de alguns atores, de uma voz narrativa empostada, artificial,  nega o próprio sentido do trabalho, criando uma distância com o público, contrapondo-se ao todo poético e naturalmente sofisticado da cena. Por esta razão, um espetáculo que teria tudo para nos manter num estado permanente de magia e concentração se faz longo, cansativo, e a poesia da cena preciosamente construída se esvai numa certa letargia que nos invade.

Fotos: Paula Duarte

Publicado por: Eliane Lisbôa

Crítica convidada do 7º Festival Nacional de Teatro


 
 



10 Set 2013

A beleza do silêncio

Publicado em Cultura as 16h12





No último dia da Mostra de Espetáculos do 7° Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora, o grupo Teatro Circense Andança, de Petrópolis, Rio de Janeiro, apresentou sua obra nem tão silenciosa “Depois da chuva”. Aconteceu no último sábado (7) no Teatro Academia.

O colombiano Gabriel García Márquez, mais importante escritor latino americano do chamado Realismo Fantástico, criou em 1955 o conto “Um Senhor Muito Velho Com Umas Asas Enormes”. Na história, após uma tempestade, um casal de caiçaras encontra em seu quintal um ser com asas e muito debilitado. Trancafiado pelos dois em um galinheiro, logo se converte em uma atração de circo, a qual os visitantes pagam aos seus “donos” cinco centavos para vê-lo e provocá-lo. Maltratando aquele que acreditam milagrosos, os moradores da cidade logo se esquecem do mesmo pela aparição de outro fenômeno: uma mulher em corpo de aranha.

Adaptações e uma nova inspiração

A situação proposta por García Márquez retorna a uma sempre presente discussão de aprisionamento daquilo ou daquele que, supostamente, nos faz bem. Questiona a devoção e relação dos homens com seus santos e deles com aquilo que é diferente. O encanto e o assombro estão lado a lado na obra fantástica. O conto parece ter influenciado a cultura pop desde o videoclipe da banda americana de rock R.E.M.: “Losing My Religion” até um episódio de Os Simpsons, passando por um desenho animado bielorrusso, um curta-metragem do argentino Fernando Birri e uma coreografia do Ballet Nacional de Cuba, com o nome “Ao Terceiro Dia de Chuva”.

De Petrópolis, Rio de Janeiro, o Teatro Circense Andança, cria agora sua própria obra partindo da inspiração neste conto, o espetáculo de expressividade (não verbal) “Depois da chuva”. Aqui, a história iça âncora do litoral e surge em meio a paisagem agreste, seca e rural de algum recôndito do Brasil profundo, onde a dureza se faz presente no solo e nas vidas. São eleitas três mulheres para representar a Humanidade, de idades e corpos diferentes, três mulheres que parecem amaldiçoadas a uma vida ordinária de trabalho e solidão. A realidade da tríade é abalada com a chegada de um homem com suas grandes asas destruída.

Foto: Paula Duarte

Na escolha de representar o contraponto do homem-anjo com mulheres, estão novas possibilidades para a mesma discussão. Mais do que qualquer coisa, este cadente é para elas um homem, e essas mulheres não estão dispostas a abrir mão do único que lhes apareceu e deixá-lo partir. A sexualidade é, portanto inserida na história, com este ser cujas partes pudendas estão cobertas por uns trapos, parecendo dizer que elas estão lá para serem ocultadas. É, portanto, mais que ave, mais que anjo: um macho. E, assim, as fêmeas trazem o que de mais forte têm em sua mítica feminina: são líderes poderosas, feiticeiras, mães e amantes sedentas. 

Entre giros e gritos

O roteiro assinado pelo grupo traz todas essas discussões, mas infelizmente de forma um tanto embaralhada. As cenas surgem como quadros isolados, apesar de se fazer entrever que o objetivo é a construção de uma narrativa inteligível. Dessa forma, os elos de encadeamento faltam e ainda que a linearidade seja dispensável, eles fariam o trabalho de compor - fora de uma ordem necessariamente - o roteiro como um todo, sem parecer interrupto por demais. Nem mesmo a repetição diária, marcada pela volta a movimentos do pôr e nascer do dia, dá conta de unir e desenvolver a narrativa, reforçando o caráter episódico no resultado mais frouxo da roteirização. 

Madson José dirige a montagem que foi vista sobre um tablado italiano com relevante profundidade. O resultado foi o palco como moldura de uma cena exuberante em sua beleza representando o universo áspero do ambiente. Com boas marcações espaciais e criação de movimentos carregados de simbolismo, a direção de José reforça a qualidade plástica de toda encenação. O uso de belas saias direcionam o movimento das mulheres e são bastante interessantes, mas acabam esvaziados pela repetição sem desdobramentos das mesmas ações. Esse retorno às imagens e ações físicas como reprodução dos dias acaba os enfraquecendo e entediando tal qual está em cena. Uma das coisas mais interessantes é o uso da mímese corpórea em desenhos de movimentos e espécie de mímica na utilização de objetos imaginários, em contraponto à objetos concretos que pairam em prateleiras sobrevoando. 

Falta, no entanto, à direção da cena, uma maior delicadeza e refinamento. Um tempo mais lento e intenso desenhado em corpo e ação para dar conta de todos esses movimentos de forma mais sensível, menos rígida, o que, pela interrupção dura, dá uma noção ainda mais fracionada do todo da cena. Se por um lado o diálogo com a mímese corpórea desenvolvida pelo Grupo Lume de Campinas se faz presente, um aprofundamento da mesma com o estudo do butoh - uma de suas origens - faz falta na perfeita execução da técnica como linguagem dentro do espetáculo.

Foto: Paula Duarte

Contraditoriamente, apesar de escolher uma montagem não verbal, há em cena uma infinidade de sons que se tornam barulhos em suas repetições, volume alto e surgimento despropositado. São toques de boiadeiros, resmungos, gromelôs e até mesmo algumas palavras curtas; uma série de vocalizações que causa verdadeiro incômodo, uma vez que sublimam a expressividade da imagem. Falta silêncio e o reconhecimento da força do mesmo.

Os elementos plásticos e humanos

O elenco é formado por um quarteto de atores que se mostra bem familiarizado em conjunto. Laércio Motta, como o ser alado, é aquele que melhor consegue equilibrar em seu corpo a intensidade que a direção pede e a delicadeza do tempo que essa história exige. Seu debater-se doloroso no chão e suas tentativas de voar demonstram essa sintonia fina, ainda mais forte pela expressividade de seu olhar dilacerado e dilacerante que passa por emoções de sofrimento ao prazer. Entre as atrizes carece um maior delineamento. Renata Alves está mais próxima da ponderação, enquanto Luísa Alves - com cabelos tingidos de um vinho que foge da paleta de cores em cena - tem maior intensidade, mas acaba enrijecendo demais suas mãos numa tensão demasiada. Rose Assis, por si só uma imagem forte e bonita, mantêm um rosto neutro, não transmitindo todos os sentimentos de sua personagem.

A direção de arte, cenário (com colaboração do grupo) e, sobretudo, figurinos de Raquel Theo são muito bonitos. Destaque para as já mencionadas saias das mulheres como elementos impactantes, pesados e versáteis, e as belas asas destruídas do homem, poéticas dentro da decadência dos farrapos. Luiz Diego Montes ilumina a cena realçando a beleza do quadro geral. A pesquisa de som de Heitor Almeida é conflitante entre a trilha sonora forte com orquestração de rabecas e os excessivos sons produzidos em cena.

Depois da chuva” é um belíssimo espetáculo para os olhos e com uma maior delicadeza poderá resultar num belo espetáculo também para a mente e o coração. O talento do grupo Teatro Circense Andança em seu diretor, atores e equipe criativa asseguram a possibilidade de alcançar tal resultado. 

Publicado por: Lucianno Maza (RJ/SP)
Dramaturgo, diretor e crítico de teatro.
Crítico convidado do 7º Festival Nacional de Teatro
 


 
 



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André Pavam

Coluna do Dia - 25/10/2014

25 de outubro de 2014
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