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EMBARQUE NESTE CARROSSEL
CONECTA
PROMOÇÕES

16 Set 2013

O rap em JF

Publicado em Cultura as 16h00





Pra galera das antigas, rap é sinônimo de Racionais Mc's e Sabotage. Hoje em dia, Emicida, Criolo, Projota e outros rappers brazucas, metem o pé na porta da comodidade e retratam uma realidade que muitos não enxergam.  É com esse pensamento que a galera do Encontro de Mc's de Juiz de Fora se reúnem para um duelo em que todas as partes ganham, principalmente os espectadores.

Brenda Andrade, uma das organizadoras, conta que o Encontro de Mc's começou em fevereiro de 2011 através de pequenos grupos de pessoas que se identificavam através do Hip-Hop, e que esse encontro tem uma grande importância não só para o cenário musical da cidade, pois dissemina não só o Rap, mas todos os quatro elementos da cultura Hip-Hop (Graffitti, Breaking, DJ e Mc).

Mc Oldi, integrante do Grupo Contágio, também faz parte do encontro de MC's e está lançando seu primeiro CD Solo. Mostrando toda a força do rap no cenário de Juiz de Fora. O CD ainda não tem previsão de lançamento mas você já pode curtir algumas músicas no SoundCloud do Mc. 

Conversamos com Oldi pra saber as expectativas do novo CD e sobre o rap em JF. Confira a entrevista e se ligue um pouco mais no submundo cultural do rap. 

Qual sua expectativa para o lançamento do CD? 

Oldi:  A expectativa pro CD está muito boa, o processo foi bastante demorado, desde 2012 fiquei na função de encontrar instrumentais que pudessem passar um pouco de mim para dentro das melodias. Ter encontrado uma textura e um formato próximo do que eu imaginei é muito satisfatório. Acho que o resultado vai ser uma mixagem de faixas que contam histórias e relatos, fictícios e reais.

Como é seu processo de criação das músicas?

Oldi: Pra mim o processo de criação é muito natural, segue como um fluxo. Escutar o instrumental antes me passa uma inspiração forte, tento tirar a letra em cima do que a base está me sinalizando. Também procuro sempre tentar abordar uma visão diferente sobre temas corriqueiros, tentando mudar pontos de vistas e evitar frases esperadas, o inédito é sempre um alvo.

O que mais te inspira nesse processo?

Oldi: O que mais inspira com certeza é a música, e a vontade de entender e fazer pra ela e por ela. Outra alegria muito grande em poder trabalhar com Hip Hop é o sentido que o movimento segue, com seus preceitos e objetivos. É uma cultura linda que me inspira a espalhar a mensagem e a essência. Acho que as pessoas conhecem muito pouco o Hip Hop, ao invés disso conhecem os elementos da cultura de forma isolada, o que prejudica. Só vivendo e sentindo pra poder entender o que se passa dentro da nossa cultura.

O que acha do rap nacional?

OldiAcho que o RAP nacional evoluiu em grande parte. Hoje já temos uma visibilidade legal, com Mc's de destaque dentro do cenário musical brasileiro e um mercado girando de forma comercial e também independente. A parte mais legal do RAP nacional pra mim é viver esse independente, e tentar sobreviver dentro dele, é difícil, porém satisfatório demais. Mas fico feliz com os artistas e grupos que despontam em vários locais, torço por eles. A parte complicada desse crescimento grande nos últimos tempos é que muitos não entendem o que é a cultura Hip Hop como um todo. Essa galera às vezes desvirtua as coisas. Pra mim entender a filosofia e os grandes arquitetos dela é o principal, espero que com o tempo esse conhecimento possa ser democratizado e passado para todos os amantes da cultura urbana.

 

Qual a maior diferença que você percebe em relação ao últimos anos no cenário nacional de Rap?

Oldi: Pra mim a maior mudança é a seguinte: finalmente as pessoas estão começando a enxergar o RAP como música e os Mc's como músicos. Isso pra mim é o mínimo de respeito e consideração que temos que receber.

 

Fale um pouco sobre o encontro de MC’s? O que tá rolando de bom aqui em JF?

Oldi: Encontro de Mc's é um dos movimentos independentes da cultura Hip Hop juizforana. Local onde os elementos são praticados, discutidos e aplicados. É o momento de protagonizar todos os agentes da cultura de rua da cidade. É o nosso grande cartão de visita pra toda população daqui e do Brasil (através da cobertura de vídeo e foto que é feita através da nossa mídia). Tentamos ser o máximo plural possível, um dos objetivos é que o evento seja sempre orgânico e sincero, quem faz é porque ama. Pra galera conhecer melhor é só indo mesmo!

Fica o convite e a expectativa do lançamento do CD. A galera que quiser saber mais é só visitar a página do Encontro de MC's

Publicado por: Vinícius Barreto


 
 



13 Set 2013

Uma estação a construir

Publicado em Cultura as 10h00





A temática é das mais instigantes e provocadoras: o envio de pessoas “indesejáveis” no convívio social para o Hospício de Barbacena, um fato histórico, que nos remete de imediato à pintura de Bosch e sua Nau dos Insensatos. A inspiração no conto de Guimarães Rosa, Soroco, sua mãe e sua filha, também estimula nosso imaginário.  
Tudo conspira, portanto, para nos colocar abertos e receptivos ao espetáculo “Estarção”, da Cia Independentes de São João del-Rei (MG).  Atores e direção da Cia. Independentes desafiam-se, assumindo todos os aspectos da cena, inclusive e particularmente a dramaturgia, optando por escrever seu próprio texto a partir de pesquisas em Barbacena e num amplo leque de materiais. 
A ideia básica da proposta dramatúrgica é o tempo da espera, e o encontro que se configura enquanto se espera.  Inconsciente de sua situação, Aurora aguarda ansiosa e mesmo esperançosa o trem que vai levá-la para o manicômio, fantasiando sobre o que vai encontrar ao final da linha.  É na estação onde aguarda que Mauro vai encontrá-la, passando a visitá-la diariamente até o dia em que chega o trem.  Durante este tempo, sentimentos se formam, laços se estabelecem, confissões e trocas são feitas.
Se os materiais primeiros são estimulantes, a concretização do espetáculo ainda se coloca num plano bastante frágil, carente da densidade que o tema proposto exige. A começar pela própria dramaturgia cujo texto que lhe dá base não chega a ir mais fundo na temática que se discute. Mauro e Aurora conversam, criam laços e em alguns momentos deixam entrever o universo imaginário em que particularmente Aurora vive mergulhada, mas tudo isto é bastante sutil, excessivamente, assim como são sutis as referências ao hospício para onde vai ser levada. Pela carência de informações mais precisas ao público e a partir da conversa dos dois personagens, este trem poderia a estar levando para muitos lugares, não necessariamente um hospício.  Se na escrita do texto o grupo optou por não cair na ilustração óbvia da narrativa, acabou caindo no extremo oposto de um excesso de sutileza que não permite ao público aproximar-se do que realmente se trata.  
Assim,  a opção pela projeção de um texto explicativo ao final, o que poderia ser um reforço e uma aprofundamento do que vinha se mostrando até então, vai se colocar como o instante da revelação, imprescindível para o entendimento da peça, ou pelo menos para nos colocar no diapasão que ela pediria dado o impulso criativo gerador do trabalho. 
Feitas estas observações, também destacamos uma série de outros elementos que a cena costura, mas que não necessariamente compõem harmonicamente com o conjunto, e por isso mesmo não nos ajudam a entrar no espetáculo. Entre eles, o figurino de Aurora, cujo tecido de um azul tão forte e brilhante faz com que ele se destaque com tal força na cena, de certo modo nos desviando do que merece ser observado.  
Os cavaletes dispostos no palco, uma boa ideia de material cênico sem dúvida, às vezes são bem explorados, mas só se vai até um certo ponto nesta exploração, e ir até o extremo disso teria sido interessante. Em outros momentos temos mesmo a sensação de que eles se encontram displicentemente largados em cena, sem considerar que sua disposição em cena, seja ela qual for,  também forma imagens em permanência para nós. 
A opção pela música ao vivo, que é normalmente um enorme ganho para a cena teatral, no caso das escolhas de “Estarção” acaba nos afastando dela, constituindo-se como um mundo à parte, um instante musical quase como um intervalo da cena e não um cantar integrado que a constitua e provoque.   A opção por canções já conhecidas do público são um elemento a mais por nos afastar do espetáculo: trata-se de um momento musical delicado, bem executado, mas fora do que estamos assistindo, trabalhando contra e não a favor da cena.  Exceção nisto, naturalmente, os diversos sons, ruídos e efeitos sonoros que se integram e enriquecem a cena ao longo do espetáculo.  
Mas particularmente a escolha da canção de Chico Buarque, “O que será que será”, quase um ícone da música brasileira, de algum modo escolhida como o mote fundamental da relação entre Aurora e Mauro, nos transporta mais uma vez para fora da cena, e não ajuda à trama. Não basta gostar-se de uma canção pois o seu uso, deve implicar no reconhecimento do lugar que ela ocupa na memória nacional, e esta em particular traz consigo todo um referencial histórico que o grupo não pode ignorar. 
Assim uma boa ideia dramatúrgica, - onde se aproveita mais uma vez, e muito bem, o conto de Guimarães Rosa -, deixa de alcançar toda sua potencialidade pela escolha da canção.  Claro que o desafio teria sido criar uma canção, mas talvez mesmo tudo se resolvesse, e com mais efetividade, no simples cantarolar de uma linha melódica, por parte de Aurora, que talvez repetido marcasse a personagem como um registro próprio, e de que Mauro se apropriasse ao final, conquistando, a partir deste encontro a sua capacidade de cantar.   
Finalmente, “Estarção” é um espetáculo que lida com relações, tentativas de reconhecimento de si e do outro, e que por isso mesmo pediria, antes de mais nada, uma dupla de personagens precisas, de modo que sua evolução ao longo do  encontro vivido, nos deixasse entrever os efeitos transformadores sobre cada um deles em resultado deste convívio, como uma experiência.  E aí encontra-se o principal problema do espetáculo: o diapasão por onde transitam os personagens, que se revela no seu modo de falar e mesmo no modo como gesticulam em cena.  
A proposta singela do espetáculo, na forma como é concebido, se esvai no momento em que estes personagens se colocam frágeis demais, um tanto bobinhos mesmo, numa expressão e gestualidade bastante artificial. Esta opção faz também com que os instantes, onde por acaso se revelaria a “loucura” ou o desequilíbrio de Aurora, façam parte desta mesma fragilidade, não chegando a dialogar conosco.  Do mesmo modo o mancar de Mauro, que, impreciso, às vezes se mantendo, em outras desaparecendo, e chegando mesmo a passar de uma perna para a outra, mais suja a cena do que cria uma empatia com o personagem. 
“Estarção” tem tudo para se transformar num bom espetáculo, mas muitos problemas a serem resolvidos, entre eles e, como questão fundamental, a concepção de seus personagens que dão o tom a todo o trabalho, e que por isso mesmo não colaboram na construção do que se imagina estar sendo apresentado. 
 

Fotos: Paula Duarte

Publicado por: Eliane Lisbôa

Crítica convidada do 7º Festival Nacional de Teatro


 
 



12 Set 2013

Teatro e música em narrativa poética

Publicado em Cultura as 14h57





“Coisas de meninos” é um espetáculo de muitas camadas, todas elas se entrecruzando, apoiadas numa narrativa essencialmente cênica. Antes de mais nada, um texto, uma sequência de acontecimentos que nos vão sendo contados, enquanto se desenha uma cidade, uma pequena cidade, com seus habitantes e seus meninos. 
Como pano de fundo desta narrativa a, ou as relações homoafetivas que se encontram escondidas, negadas, mutiladas pela cultura local, a pequena cidade onde tudo é visto apenas de um único lado, por um único prisma E onde o mascaramento, a mentira fazem parte de seu dia a dia, a ponto de o artesanato “local” ser trazido da cidade vizinha.  Os meninos crescem neste mundo e o que eles experimentam de sentimentos diferentes disso os coloca em desequilíbrio.  
O espetáculo apresentado pela Cia. dos Meninos, de São Paulo, transita de alguma maneira no mesmo diapasão, portanto, de Luis Antonio/Gabriela,  (Cia. Munguzá, SP) do ponto de vista temático, sem chegar ao nível de profundidade daquele.  Aqui tudo é muito velado, quase não dito, como um sussurro. Se isso pode constituir um tom poético também não deixa de camuflar o que se quer discutir, e esta própria postura acaba impedindo o reconhecimento e a discussão ela mesma. Neste caso, apresentar a questão de maneira tão velada é quase compactuar com os que nos querem impedir de trazer à luz do dia nosso modo de ser e sentir.  
Mas sobre este pano de fundo, ou em camada ainda mais profunda na cena, “Coisas de meninos” transita por outros temas e espaços e cria em nós um espaço do imaginário e do poético que superam ou se sobrepõem a esta fragilidade. A dupla de meninos que assumem a atração que sentem um pelo outro é uma, dentro do conjunto de todas as imagens que o espetáculo oferece, de uma pequena cidade, do poder opressivo da Igreja, do medo de mergulhar fundo na própria vida. Mais do que simplesmente discutir as relações  homoafetivas (se é que a questão pode ser vista como simples), Coisas de Meninos discute a vida, ou poetiza a vida, de um lugarejo ou do contido em nós, do sufocado, do medo de existir que leva ao medo de matar, do medo de viver que leva ao desejo de morrer.    
Particularmente, entendemos que a força do espetáculo encontra-se sobretudo em sua poética formal,  nesta narrativa que se faz ação e se refaz narrativa com pequenos gestos, uns poucos objetos, grandes manequins e minúsculas figuras, tudo manipulado, conduzido pelas mãos precisas e sensíveis do conjunto de atores/músicos.
A narrativa vai sendo conduzida numa forma espiralada, com o pequeno mundinho da cidade se revelando aos poucos, por aproximações e recuos, até que tudo fique claro e a cidade então se desfaça como se ela fosse apenas construída em nossa imaginação e em nossa imaginação nos sufocando. Libertar-se é consequentemente destruir, explodir, inundar a cidade.  Deixar que o rio que chamava para o mergulho finalmente a cubra totalmente, restando as águas livres por onde se possa nadar.
Há no espetáculo, na maneira como lida com este texto já por si poético, uma sabedoria e leveza na sua construção, com os jovens atores transitando com delicadeza por todas as suas passagens, feitas de idas e vindas, de momentos presentes e recordações.  Desde a manipulação dos manequins até os momentos musicais, passando pelo jogo dos atores no centro da arena, narrando e representando, em tudo o espetáculo nos cativa e coloca num estado de emoção e sensibilidade. O jogo preciso dos atores e da luz fortalecem ainda mais esta interação, costurando com sabedoria a cena e suas inúmeras passagens. 
Trabalhando permanentemente com metáforas, o texto obriga os atores a trabalharem com a narrativa na construção de um lugar imaginário, onde temos todos um buraco no peito, onde sufocamos por falta do ar que os outros  nos roubam, onde a igreja ocupa 80% do espaço habitável.  Tantas e outras metáforas como essas que nos levam para um tempo e lugar mítico, de imagens próximas do realismo fantástico, mas que nos é apresentado de modo tão leve, sutil mesmo, com a disposição desses manequins, brancos, lisos, sem roupas, sem rosto, e os atores que lidam com eles e entre eles permanentemente, passando com a mesma leveza da cena para fora dela e para as intervenções musicais. 
Em torno da arena delimitada pelos atores e objetos, os instrumentos musicais, de que os atores vão se servir a cada tanto, cercam-na em semicírculo, dando-nos a ideia exata de uma banda musical pronta para sua apresentação, o que se realiza ao final, concretizando-se o sonho dos meninos de formar uma banda, que, de fato, parece ser ao mesmo tempo o sonho destes atores de fazer um espetáculo que mescle de tal modo as duas artes, teatro e música, que construa um outro ser, uma arte diferenciada, onde não haja sobreposição de nenhuma delas, onde a construção teatral esteja evidenciada em permanência, e a sua musicalidade não seja um  elemento à parte, mas componha com ela, formando de fato uma unidade na sua forma espetacular.  A risada final dos atores de algum modo nos diz isto, do prazer de ali estar, desta forma, também nisto assumido sua singularidade, enquanto nos fala também das tantas possiblidades de que tudo não tenha passado de uma bela e triste história que estes atores/músicos se dispuseram a nos contar. 
Infelizmente, no entanto, em meio a tantos atributos positivos, a escolha por parte de alguns atores, de uma voz narrativa empostada, artificial,  nega o próprio sentido do trabalho, criando uma distância com o público, contrapondo-se ao todo poético e naturalmente sofisticado da cena. Por esta razão, um espetáculo que teria tudo para nos manter num estado permanente de magia e concentração se faz longo, cansativo, e a poesia da cena preciosamente construída se esvai numa certa letargia que nos invade.

Fotos: Paula Duarte

Publicado por: Eliane Lisbôa

Crítica convidada do 7º Festival Nacional de Teatro


 
 



10 Set 2013

A beleza do silêncio

Publicado em Cultura as 16h12





No último dia da Mostra de Espetáculos do 7° Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora, o grupo Teatro Circense Andança, de Petrópolis, Rio de Janeiro, apresentou sua obra nem tão silenciosa “Depois da chuva”. Aconteceu no último sábado (7) no Teatro Academia.

O colombiano Gabriel García Márquez, mais importante escritor latino americano do chamado Realismo Fantástico, criou em 1955 o conto “Um Senhor Muito Velho Com Umas Asas Enormes”. Na história, após uma tempestade, um casal de caiçaras encontra em seu quintal um ser com asas e muito debilitado. Trancafiado pelos dois em um galinheiro, logo se converte em uma atração de circo, a qual os visitantes pagam aos seus “donos” cinco centavos para vê-lo e provocá-lo. Maltratando aquele que acreditam milagrosos, os moradores da cidade logo se esquecem do mesmo pela aparição de outro fenômeno: uma mulher em corpo de aranha.

Adaptações e uma nova inspiração

A situação proposta por García Márquez retorna a uma sempre presente discussão de aprisionamento daquilo ou daquele que, supostamente, nos faz bem. Questiona a devoção e relação dos homens com seus santos e deles com aquilo que é diferente. O encanto e o assombro estão lado a lado na obra fantástica. O conto parece ter influenciado a cultura pop desde o videoclipe da banda americana de rock R.E.M.: “Losing My Religion” até um episódio de Os Simpsons, passando por um desenho animado bielorrusso, um curta-metragem do argentino Fernando Birri e uma coreografia do Ballet Nacional de Cuba, com o nome “Ao Terceiro Dia de Chuva”.

De Petrópolis, Rio de Janeiro, o Teatro Circense Andança, cria agora sua própria obra partindo da inspiração neste conto, o espetáculo de expressividade (não verbal) “Depois da chuva”. Aqui, a história iça âncora do litoral e surge em meio a paisagem agreste, seca e rural de algum recôndito do Brasil profundo, onde a dureza se faz presente no solo e nas vidas. São eleitas três mulheres para representar a Humanidade, de idades e corpos diferentes, três mulheres que parecem amaldiçoadas a uma vida ordinária de trabalho e solidão. A realidade da tríade é abalada com a chegada de um homem com suas grandes asas destruída.

Foto: Paula Duarte

Na escolha de representar o contraponto do homem-anjo com mulheres, estão novas possibilidades para a mesma discussão. Mais do que qualquer coisa, este cadente é para elas um homem, e essas mulheres não estão dispostas a abrir mão do único que lhes apareceu e deixá-lo partir. A sexualidade é, portanto inserida na história, com este ser cujas partes pudendas estão cobertas por uns trapos, parecendo dizer que elas estão lá para serem ocultadas. É, portanto, mais que ave, mais que anjo: um macho. E, assim, as fêmeas trazem o que de mais forte têm em sua mítica feminina: são líderes poderosas, feiticeiras, mães e amantes sedentas. 

Entre giros e gritos

O roteiro assinado pelo grupo traz todas essas discussões, mas infelizmente de forma um tanto embaralhada. As cenas surgem como quadros isolados, apesar de se fazer entrever que o objetivo é a construção de uma narrativa inteligível. Dessa forma, os elos de encadeamento faltam e ainda que a linearidade seja dispensável, eles fariam o trabalho de compor - fora de uma ordem necessariamente - o roteiro como um todo, sem parecer interrupto por demais. Nem mesmo a repetição diária, marcada pela volta a movimentos do pôr e nascer do dia, dá conta de unir e desenvolver a narrativa, reforçando o caráter episódico no resultado mais frouxo da roteirização. 

Madson José dirige a montagem que foi vista sobre um tablado italiano com relevante profundidade. O resultado foi o palco como moldura de uma cena exuberante em sua beleza representando o universo áspero do ambiente. Com boas marcações espaciais e criação de movimentos carregados de simbolismo, a direção de José reforça a qualidade plástica de toda encenação. O uso de belas saias direcionam o movimento das mulheres e são bastante interessantes, mas acabam esvaziados pela repetição sem desdobramentos das mesmas ações. Esse retorno às imagens e ações físicas como reprodução dos dias acaba os enfraquecendo e entediando tal qual está em cena. Uma das coisas mais interessantes é o uso da mímese corpórea em desenhos de movimentos e espécie de mímica na utilização de objetos imaginários, em contraponto à objetos concretos que pairam em prateleiras sobrevoando. 

Falta, no entanto, à direção da cena, uma maior delicadeza e refinamento. Um tempo mais lento e intenso desenhado em corpo e ação para dar conta de todos esses movimentos de forma mais sensível, menos rígida, o que, pela interrupção dura, dá uma noção ainda mais fracionada do todo da cena. Se por um lado o diálogo com a mímese corpórea desenvolvida pelo Grupo Lume de Campinas se faz presente, um aprofundamento da mesma com o estudo do butoh - uma de suas origens - faz falta na perfeita execução da técnica como linguagem dentro do espetáculo.

Foto: Paula Duarte

Contraditoriamente, apesar de escolher uma montagem não verbal, há em cena uma infinidade de sons que se tornam barulhos em suas repetições, volume alto e surgimento despropositado. São toques de boiadeiros, resmungos, gromelôs e até mesmo algumas palavras curtas; uma série de vocalizações que causa verdadeiro incômodo, uma vez que sublimam a expressividade da imagem. Falta silêncio e o reconhecimento da força do mesmo.

Os elementos plásticos e humanos

O elenco é formado por um quarteto de atores que se mostra bem familiarizado em conjunto. Laércio Motta, como o ser alado, é aquele que melhor consegue equilibrar em seu corpo a intensidade que a direção pede e a delicadeza do tempo que essa história exige. Seu debater-se doloroso no chão e suas tentativas de voar demonstram essa sintonia fina, ainda mais forte pela expressividade de seu olhar dilacerado e dilacerante que passa por emoções de sofrimento ao prazer. Entre as atrizes carece um maior delineamento. Renata Alves está mais próxima da ponderação, enquanto Luísa Alves - com cabelos tingidos de um vinho que foge da paleta de cores em cena - tem maior intensidade, mas acaba enrijecendo demais suas mãos numa tensão demasiada. Rose Assis, por si só uma imagem forte e bonita, mantêm um rosto neutro, não transmitindo todos os sentimentos de sua personagem.

A direção de arte, cenário (com colaboração do grupo) e, sobretudo, figurinos de Raquel Theo são muito bonitos. Destaque para as já mencionadas saias das mulheres como elementos impactantes, pesados e versáteis, e as belas asas destruídas do homem, poéticas dentro da decadência dos farrapos. Luiz Diego Montes ilumina a cena realçando a beleza do quadro geral. A pesquisa de som de Heitor Almeida é conflitante entre a trilha sonora forte com orquestração de rabecas e os excessivos sons produzidos em cena.

Depois da chuva” é um belíssimo espetáculo para os olhos e com uma maior delicadeza poderá resultar num belo espetáculo também para a mente e o coração. O talento do grupo Teatro Circense Andança em seu diretor, atores e equipe criativa asseguram a possibilidade de alcançar tal resultado. 

Publicado por: Lucianno Maza (RJ/SP)
Dramaturgo, diretor e crítico de teatro.
Crítico convidado do 7º Festival Nacional de Teatro
 


 
 



09 Set 2013

O encaixe das coisas

Publicado em Cultura as 08h06





Núcleo Caboclinhas, de São Paulo, trouxe ao 7° Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora na última sexta-feira (6) sua adaptação para “Bem do seu tamanho”, espetáculo para crianças - e adultos - sobre o crescer, apresentado no Diversão & Arte.
 
 
Escrito por Ana Maria Machado (uma das “imortais” da Academia Brasileira de Letras), o livro infantil “Bem do seu tamanho” conta a saga de Helena tentando entender afinal qual tamanho as coisas têm. A menina é pequena demais para fazer algumas e grande demais para estar em outras. Saindo pelas ruas em busca da resposta a qual é seu tamanho, ela acaba passando por diversas experiências de formação e termina por descobrir que já está crescendo e que mais do que altura ela ganha a maturidade que faz o mundo de dentro e o mundo de fora mudarem.
 
Adaptado por Evil Rebouças, o texto se passa num interior que reúne elementos de diversas regiões do Brasil, são todos eles, mas também nenhum. Não se trata de um lugar geográfico, mas daquele lugar da nostalgia, da memória afetiva e da idealização romântica. Um interior que não se tem mais nesse mundo hoje tão globalizado (com todos os trocadilhos que possam haver nesta palavra), voltando-se, enfim, para o interior de nós mesmos.
 
É para lá que embarca Helena e seu amigo-brinquedo Bolão, um boi de mamão, cruzando com outras figuras que eles encontram pelo caminho. Rebouças consegue condensar bem a história e apresentar uma narrativa épica quando narrada e bem representativa quando vivenciada. Entre o resultado bem sucedido da dramaturgia, apenas as citações a outras obras, como a uma das mais belas passagens de Hilda Hilst (1930-2004) soam forçadas.
 
Contemplação e interação
 
Edu Silva, o diretor, divide sua Helana em quatro para dar conta desse texto dramatúrgico que estabelece um outro tempo e um outro lugar de imaginários e lembranças. Uma obra que pede assim uma cena para ser admirada, para ser assistida como de dentro de um trem que lentamente desliza por trilhos revelando paisagens bucólicas e pessoas tão próximas e distantes da gente. Silva consegue criar alguns desses momentos e tem boas cenas como a pequena festa junina/folguedo. O ritmo alto demais de outras, no entanto, por vezes acaba trazendo uma cena bagunçada e gritada que nos tira essa oportunidade tão prazerosa e hoje esquecida pelo teatro que é a da contemplação.
 
Um momento um pouco perdido é aquele que utiliza o teatro de sombras logo no início, onde os movimentos são um tanto rígidos e rápidos demais, sem o refinamento de um tempo de maior lentidão e beleza, como essa expressividade pede. Ainda sobre o tempo, em outros segmentos também a brutalidade acaba interferindo na poética de cenas como a do rio, onde o que se constrói de delicadeza é interrompido por uma atriz que chuta o pedaço de pano que representa esse córrego, destruindo o olhar e sentimento, sem licença.
 
Ao mesmo tempo que tenta seguir a narrativa e, a seu modo, o tempo contemplativo que o texto e a cena pedem, o diretor em algumas pouquíssimas, mas marcantes vezes, cai também na armadilha de solicitar uma integração das crianças como se isso as fizesse menos ou mais atentas. O resultado são palmas burocráticas quando pedido, uma vez que elas são arrancadas do difícil de ser atingido estado de observação e contemplação em que estão para dar uma resposta física àquilo que não necessita.
 
Seu maior trunfo, e não é realmente pouco, é como Silva consegue integrar bem o texto e a música popular, mesclando os dois universos extremamente bem, criando rara identidade e fluidez entre as duas linguagens no espetáculo.
 
 
Cena que reflete uma pesquisa
 
Aline Anfilo, Geni Cavalcante, Giuliana Cerchiari e Luciana Silveira são todas Helenas e quase todas João Bolão. São também elas próprias e musicistas. São visíveis o domínio e integração do quarteto de atrizes, revelando que trata-se de um grupo que vem pesquisando conjuntamente e continuamente a cultura que lhes interessa. Debruçadas em sério sobre o material que escolheram, rendem em consistência num jogo interessante. Apenas a falta de equalização vocal incomoda, já que, muito gritado, o espetáculo perdeu muito da delicadeza do texto. Sobretudo Cavalcante, falando alto demais e tão próximo ao público na presente apresentação o que, por melhor que seja a composição, acaba lhe dando um tom falso e exagerado. Bem mais suave, Anfilo é a que melhor transmite diferentes emoções, especialmente quando dá vida à Bolão.
 
É Anfilo também a responsável pela trilha sonora com colaboração do diretor e de Tata Fernandes, essa muito bem assimilada pela encenação, nunca fora do lugar e capaz de situar os momentos. A boa execução musical de todas em cena também faz a diferença para esse bom resultado.
 
Na equipe criativa, o diretor e André di Perolli são responsáveis por uma cenografia centrada em panos com inúmeros bordados que fazem as vezes de lençóis e paisagens, remetendo a outros trabalhos similares, sobretudo à “Histórias de Lenços e Ventos” de Ilo Krugli. Aqui o cenário foi grande demais para o espaço de apresentação, não exatamente por seu tamanho, mas porque ele precisa de espaços em laterais e profundidade para atingir sua proposta. O resultado foram elementos espremidos e, por isso mesmo, uma imagem suja. A iluminação de Silva aparenta também por uma rigidez que não adaptou-se bem às possibilidades, quase todo tempo geral e chapada, sem criar o encantamento a qual deve se propor.
 
Em um espetáculo que fala de tamanhos, o uso de espécies de bonecos de Olinda criados por Thiago Paiva e que as atrizes manipulam para representar os pais da jovem protagonista é uma ótima ideia. Está dentro do universo da cultura popular e é mais alto que as mulheres em cena, criando uma perspectiva de tamanhos grande e pequeno. Os outros adereços de Paiva e Adilson Vieira também seguem a mesma estética, criando uma unidade visual. Os figurinos do diretor, do grupo e de Marina Moll são funcionais e expõem bem a proposta das atrizes se tornando e dividindo Helena, e tem uma boa ideia na casaca bicolor verde/maduro do personagem do Boi de Mamão.
 
O espaço que se ocupa
 
Cabe refletir que os principais problemas da apresentação surgem em um espaço de apresentação menor. Os volumes do cenário e da voz das atrizes parecem feitos para o palco maior, não para a sala multiuso onde a cena é bem próxima da plateia. Assim, o espetáculo terminou apertado, ao invés de ter aproveitado essa nova configuração para tirar proveito. Tomando o tema da própria peça, é preciso perceber qual é o tamanho do espetáculo e o quanto ele pode crescer ou diminuir espacialmente. É preciso assumir o desafio e saber apropriar-se do espaço ocupado, adaptar sem perdas e sim com descobertas criativas. Ou simplesmente optar por apresentar apenas nos palcos que lhe cabem.
 
Fica a reflexão e também a boa impressão deixada pelo Núcleo Caboclinhas com seu trabalho de estudo e desenvolvimento em torno das expressões populares bem integradas à um belo clássico infantil brasileiro. “Bem do seu tamanho” é um espetáculo para ser contemplado.
 

Fotos: Paula Duarte

Publicado por: Lucianno Maza  (RJ/SP)
Dramaturgo, diretor e crítico de teatro.
Crítico convidado do 7º Festival Nacional de Teatro

Publicado por: Lucianno Maza


 
 



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Coluna do Dia - 30/09/2014

30 de setembro de 2014
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